O jornalismo que informa e integra o homem à natureza

O universo da temática ambiental é um campo vasto e complexo, que pode escapar da alçada de muitos profissionais, mas que pelo trabalho árduo de uma vanguarda de cientistas, ambientalistas e jornalistas aos poucos está sendo embutida definitivamente como uma preocupação na história contemporânea. O processo, que começou há no mínimo três décadas, chegou a um ponto em que as faculdades servem de mesa para debates e refletem diretamente no mercado de trabalho.

O jornalismo, como a sociedade, passa por constante mudança. Aqueles antigos hábitos e costumes, que antes faziam sentido, aos poucos mudam com os avanços da ciência e do conhecimento. O jornalista não é peça excludente desse processo; ele se reinventa a cada reportagem, já que com o tempo a experiência e o compromisso devem ser supostamente ampliados. E sabemos que nas redações não há rotina. Um repórter precisa estar preparado para apurar informações e cobrir todo e qualquer tipo de evento para o veículo de comunicação em que trabalha. A abordagem de diversos assuntos compete à diversidade da sociedade em que estamos inseridos e, como principal ativo, o jornalista é um agente de integração entre as temáticas do cotidiano.

Discutir ou realizar pautas sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável não deve ser encarado como uma manifestação de militância, mas de consciência sobre o papel do jornalista como indivíduo habitante deste planeta. Com base nas noções sobre a natureza, os profissionais de comunicação podem acompanhar as diferentes vertentes que são discutidas sobre o tema em âmbito mundial e gerar ainda mais debates para exercer sua função pública. O livro Formação & informação ambiental: jornalismo para iniciados e leigos (Summus, 2004), organizado por Sergio Vilas Boas, serve como fonte para pesquisa e aprendizado sobre como cobrir pautas no jornalismo ambiental. Segundo artigo de Eduardo Geraque, através do embasamento é que a transmissão dos fatos pode ser concluída e repercutir de forma favorável para as gerações presentes e futuras.

As observações e teorias de ambientalistas também nos ajudam a perceber a urgência e importância de se pautar a sociedade sobre os caminhos da civilização, que, ao que tudo indica, devem ser repensados. O engenheiro agrônomo gaúcho José Lutzenberger escreveu, em manifesto na segunda metade da década de 70, que os homens agem como se fossem a última e única geração com direito à vida. Tudo para o homem parece ser urgente, exceto a atenção devida aos assuntos que o afetam a curto, médio e longo prazos, como observou também o jornalista Roberto Villar Belmonte, em outro artigo do livro citado acima. Esses são hábitos que deveriam ser discutidos e colocados no jornalismo diário por definitivo. Afinal, a terra não evolui unicamente para o nosso benefício, conforme descreveu o cientista inglês James Lovelock, um dos autores da Teoria de Gaia, e quaisquer mudanças que efetuemos nela serão por nossa própria conta e risco, pois haverá consequências.

Aprender com os erros e acertos

Apesar do auxílio das novas tecnologias, que dão aquela mãozinha na rotina corrida da redação, os jornalistas pecam na abordagem do conteúdo. Como se isso não bastasse para enfraquecer a cobertura ambiental, a ampla liberdade para exercer esse jornalismo parece não estar na mídia tradicional. De acordo com o que escreveu Belmonte, a maior parte das reportagens sobre meio ambiente está sendo publicada em espaços periféricos. E, quando finalmente um grande veículo decide abordar o tema, o que se lê são curiosidades sobre as características exóticas de um fenômeno ou a destruição que causa, em tom superficial, conforme constatou a jornalista Regina Scharf em artigo também publicado no livro citado anteriormente: “por tradição ou preconceito, boa parte da imprensa trata a questão ambiental como algo superficial e não por seu impacto concreto: político, econômico ou social. O valor da natureza é puramente estético”.

Sobre o descuido do jornalismo, vale lembrar as muitas inundações que ocorrem no estado do Rio Grande do Sul, onde os veículos de comunicação parecem prezar pela cobertura alarmista. Desta maneira, a abordagem não surte efeitos na busca de uma razão para esclarecer esses fenômenos naturais, mas acaba por colocar toda e qualquer responsabilidade somente sobre as autoridades. A exemplo disso, em Porto Alegre a situação das enchentes tem apenas uma explicação: a drenagem. Segundo a jornalista e integrante da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes-RS), Cecy Oliveira, em depoimento aos alunos da disciplina de jornalismo ambiental da UniRitter no primeiro semestre de 2014, a canalização pluvial na capital do estado não é eficiente por causa das mudanças climáticas às quais a cidade é submetida, que inundam seus arroios. Logo, ao procurar a solução, o jornalista poderá formar uma nova consciência no leitor ao informar sobre o problema. Ainda que a busca demande tempo, a apuração pode trazer mais satisfação ao profissional e também melhorias para a sociedade.

O jornalista Eduardo Geraque, em seu artigo publicado no livro já citado, defende que o papel da imprensa se resumiria a investigar e cobrar, sempre com o objetivo de falar para alcançar a compreensão de todos. Não basta saber muito sobre o assunto que está desenvolvendo na reportagem, mas conseguir traduzir em palavras o conhecimento de uma maneira que seja compreensível para o maior público possível. O jornalista ao ter os termos científicos sob seu poder de entendimento pode comunicar o desejado com uma visão completa do quadro. A total cobertura compreende também à abordagem de todas as partes afetadas, como os vieses ecológico, econômico e social. Levando em conta a teoria sistêmica trabalhada por Fritjof Capra, no livro O Ponto de Mutação, todas as partes estão interconectadas em um só sistema e, portanto, não há como enxergar ou ouvir apenas um dos lados da história.

“Uma andorinha só não faz verão”

A nova geração do jornalismo, no entanto, tem bons trabalhos para se espelhar. Cito, por exemplo, o caso da Rádio Eldorado de São Paulo, que foi abordado no livro por Roberto Vilar Belmonte. Na década de 90, a rádio lançou uma campanha de despoluição do rio Tietê, que acabou influenciando a criação de políticas públicas em São Paulo. Situação parecida aconteceu recentemente no Rio Grande do Sul em um grande grupo de comunicação gaúcho. A reportagem investigativa e multifacetada Império da Areia: a dragagem que mata o Jacuí, dos repórteres Renata Colombo, da Rádio Gaúcha, e Fábio Almeida, da RBSTV, denunciou a extração ilegal de areia nas encostas do rio Jacuí. O trabalho desses jornalistas abriu uma ampla discussão no estado e também investigações sobre esse crime ambiental que repercutiu imensamente durante meses. Por ter sido explorado com cautela e afrontar os próprios anunciantes do veículo, a pauta continua a ser comentada nas salas de aula. Os repórteres ganharam vários prêmios, entre eles o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha.

Assim como o investigativo, o jornalismo ambiental não é diferente: ambos são a forma mais pura e crua do próprio jornalismo. A apuração, o conhecimento e a aplicação dos conceitos e técnicas fazem o conjunto de uma boa reportagem e, assim, o profissional pode agregar nuances de educador. O leitor, ouvinte ou telespectador que tiver contato com o trabalho do jornalista que valoriza e sabe trabalhar com esse viés não terá dificuldades em entender seu papel no planeta. O jornalista, mais do que nunca, precisa juntar o seu conhecimento e suas ferramentas para informar e integrar o homem com a natureza.

Letícia Bonato Macedo
Jornalismo Ambiental / Manhã
Artigo publicado no blog da disciplina de Jornalismo Ambiental da UniRitter.

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