Independência e jornalismo contra-hegemônico

Há poucos dias concedi uma entrevista a Letícia Bonato, estudante de jornalismo da UniRitter (RS). Dentre as perguntas que me fez, a maioria delas diretamente sobre o Jornalismo B, duas delas trazem debates especialmente importantes relacionados ao que costumamos discutir aqui. Por isso reproduzo abaixo as duas questões:

Por que fazer jornalismo de forma independente? Qual o propósito do trabalho independente e o que o diferencia do jornalismo tradicional?

Na verdade me parece difícil falar em “jornalismo independente”. Entendo que estamos em meio a um processo de ressignificação de alguns conceitos sociopolíticos, e participarmos desse processo de forma consciente é a única maneira de nos assenhorarmos dele. Talvez seja melhor falar em “jornalismo contra-hegemônico”, já que toda construção discursiva depende de algo ou de alguém. A diferença entre o jornalismo dominante e o contra-hegemônico é de quem cada um depende, e, fundamentalmente, a quem serve. Enquanto o primeiro depende do capital, depende das grandes corporações, depende da desregulação do setor e depende das verbas estatais, o jornalismo contra-hegemônico depende do leitor. Enquanto o primeiro serve ao capital, às grandes corporações e às elites políticas e econômicas, de modo geral, o segundo serve às lutas populares, serve aos oprimidos, aos dominados, aos explorados, e deve com esses setores sociais procurar transformar a sociedade. A diferença básica, então, entre o jornalismo “tradicional” e um outro jornalismo que tenta emergir (que não é novo, mas que busca construir uma nova hegemonia) é de quem depende e a quem serve. Um serve à conservação da situação de dominação, opressão e exploração. O outro serve à transformação.

Já que vives isso, sabes me dizer como é a cena do jornalismo independente em Porto Alegre? A que pé anda?

Como todas as situações que precisam ser avaliadas de forma temporal, o jornalismo independente em Porto Alegre tem avanços e retrocessos. Se mais avançamos ou retrocedemos, a avaliação só poderá ser feita mais tarde, quando tivermos resultados práticos (ou não) disso tudo o que está sendo construído. É claro que temos, como em todo o Brasil, uma expansão da internet, que felizmente tem sido acompanhada de um fortalecimento de alguns espaços. Por outro lado, alguns blogs que foram importantes no início da blogosfera política gaúcha deixaram de existir ou suas postagens tem se tornado cada vez mais raras. A união desses blogueiros também parece ter se dissipado um pouco. Os jornais de bairro construíram uma nova corrente de relações agora, a partir da questão das verbas publicitárias do governo Tarso Genro. Está sendo feito um debate importante nesse sentido, e mesmo que não dê em nada vai ficar daí uma experiência de reivindicação conjunta, e essa coletivização das pautas é fundamental para que a mídia alternativa – que é diferente de mídia contra-hegemônica – possa avançar. Ao mesmo tempo, temos experiências importantes e diferentes que estão aparecendo. Sem dúvida a profusão de novos comunicadores interessados em pensar a mídia de outra forma é uma vantagem. Por outro lado, me questiono o seguinte: ok, queremos pensar a mídia de forma diferente, mas que forma é essa? Há ainda uma falta de norte político, uma certa dificuldade em pensar para onde se quer ir, em que direção se quer caminhar. Isso é obviamente causado por um esvaziamento geral da política, inclusive dentro das faculdades de comunicação. Cada vez mais se sai das faculdades sem formação política, e pior, sem estímulo para que se busque essa formação. Esse problema cria um vazio dentro do trabalho do jornalista alternativo. Muitas vezes ele não consegue se tornar contra-hegemônico, fica no caminho, porque não compreende – e não busca compreender – que hegemonia está enfrentando e que hegemonia quer ajudar a ascender.

– Entrevista publicada por Alexandre Haubrich, no jornalismob

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